Arquivo para Agosto, 2009

Carta de Despedida

Foi muito bom. Muito bom mesmo.

Chorei como nunca chorei na minha vida. Ri todas as risadas do mundo.

Voei algumas vezes. Me apaixonei. Me decepcionei e me surpreendi.

Nesse tempo, me transformei diversas vezes.

Saí de casa, bebi, caí (muito) e levantei (com a ajuda de quem sempre estava por perto).

Quase morri de saudades (literalmente).

Teve horas que eu quase não agüentava mais olhar alguns rostos, mas agora, pagava quantas Cocas pedissem para vê-los de novo.

Li. Parei de ler. Voltei a ler em dobro.

Me descobri um pouco mais. Percebi o que me dá segurança. Percebi que amo abraços e não posso viver sem eles. Amo mãos dadas.

Conheci alguns dos meus melhores amigos, que com certeza, levarei para o resto da vida.

Vi que, na verdade, eu quero sim conhecer o mundo e dar um abraço em cada cultura existente.

Bater fotos me deixa feliz.

Aprendi que se eu não amar, não serei eu, e sim alguém que não fui eu quem inventou, e isso é muito triste. Se não amo, não vivo.

Tive muita dor. Alguns partos que me fazem uma das pessoas mais felizes desse mundo.

Aprendi como se faz para colocar um pé fora do jardim. Uma hora eu consigo pular pra fora com os dois. Ainda preciso colocar os tênis.

Em muitas madrugadas eu gritei de dor, muitas manhãs, eu quase não agüentei de cansaço. Muitas vezes, quis bater em alguém. Muitas vezes quis beijar alguém.

Vi o tipo de pessoa com a qual eu quero viver perto e me tornar. Me desliguei da preocupação de agradar a todos ( claro que não totalmente, mas a idéia é essa).

Vi que ter livros por perto me deixa tranqüila e segura. Também gosto de ter alguém por perto. Mesmo que não fale nada. Existe alguém ali comigo.

Estou com menos medo das pessoas. Menos medo de mim. Um pouco mais livre. Uma hora, saio mesmo do jardim.

Não sei ir atrás de ninguém (não importa pra quê e quem) e estou aprendendo a conviver com isso e deixar as pessoas virem até mim. Às vezes eu tento ir atrás, e isso pode causar muitas risadas e confusões para ambos os lados.

Esse tempo passou muito rápido, mas foi o mais intenso da minha vida. Comecei milhares de processos e agora tenho o desafio de terminá-los. Deus me ajude!

Não penso do modo comum. Nunca. Isso me ajuda a escrever. Mas acaba comigo em matemática.

Tenho sonhos completamente diferentes, mas que não são incoerentes.

Não seja incoerente comigo e nem descumpra suas promessas, por favor.

Meus 18 anos foram marcados por sentimentos intensos. Muita luz e muito breu.

Ainda tateio tudo.

Agora chegam desafios diferentes, igualmente intensos e difíceis, mas estou alegre por eles, minha vida está andando para frente.

Agradeço pela vida de cada um que conheço e conheci neste ano. Por todos que pegaram na minha mão e me ajudaram a seguir em frente.

Agradeço a quem confiou e acreditou em mim.

Agradeço ao imerecido e enorme amor que recebi e ainda recebo.

Meus 18 anos estão indo. Não teve nada a ver com o que eu imaginava quando eu tinha 10 anos. Graças a Deus! Esse ano foi bem mais colorido que qualquer outro que eu poderia imaginar.

Obrigada por tudo até aqui!

Agora é tudo novo de novo!

“Eu não sei pra onde a gente vai andando pelo mundo.

Eu não sei pra onde o mundo vai, nesse breu vou sem rumo.”

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Vida x Lixo

Algo perturbadoramente assustador me acordou de madrugada nesta noite.

Era um grito. Talvez de um adolescente. Gritava por socorro. O silêncio que inundava o bairro era asfixiante. Medonhamente paralisante.

Eu estava sonhando. Mal lembro com o quê. Nunca acordo quando estou sonhando. Nem quando meu cachorro late na minha porta. Se sonho, não acordo.

Talvez seja assim na vida real também. Eu sonho com tantas coisas que acabo não ouvindo o barulho fora da minha cabeça.

Mas essa noite foi diferente. Eu acordei com essa pessoa. Xingava alguém mandando-a tomar no ** e pedia socorro.

Acordei ofegante. Queria fazer alguma coisa, mas faria o que?

Fujo de todos os estereótipos que me cercam, e mesmo assim, tantas vezes me torno escrava deles. Talvez por vontade. Talvez por medo.

Às vezes tenho vontade de mudar o mundo; mesmo que seja sozinha. Que qualquer coisa fique diferente, já é suficiente. Ajudar todas as pessoas que estao na rua. Distribuir dinheiro a todos que tem dívidas. Curar todos os doentes. Orar com todos os perdidos e tristes. Abraçar todos que quiser ( precisando eles ou não). Fazer qualquer coisa que faça as pessoas ao meu redor perceberem que o lixo em que elas vivem pode ser jogado em um lugar que não seja o coração delas. Que não seja a vida delas. Há coisas muito melhores do que procurar qualquer coisa em uma lata de lixo que nos faça subsistir um minuto a mais. Mesmo que este minuto seja dos mais tristes e solitários.

Sempre existe algo melhor.

Não me conformo facilmente. Nem com o bem, nem o mal. Como pode existir alguém que se conforme em ser triste, vazio e solitário? Me recuso acreditar que esse alguém nunca sentiu raiva de si mesmo por essa vida que tem.

Deus nos dá a vida. Mas somos responsáveis por ela. Ninguém é coitado nesse mundo.

Todos pagamos o preço por esse lixo que cultivamos.

Eu não levantei da cama para abrir a janela e pelo menos ver o que acontecia com o xingador que precisava de ajuda. Apenas chorei pela minha incapacidade de abrir a mão, de fazer qualquer diferença em um lixo a céu aberto que chamamos de vida.

Chorei e orei, pelo ser perdido que vagava sem casa numa madrugada gelada numa rua rica e deserta da maior cidade do país. O “guarda” apitava ruidosamente. A quem ele queria enganar com aquele apito? Estava defendendo a quem afinal?

A quem dormia o sono profundo?

A quem temia a janela aberta e um pedido direto e inútil?

A si mesmo?

A quem você protege do lixo que criamos para nós mesmos?

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Para não perder…

No teu caminhar

Suscita-me o mistério.

Com o teu olhar

Ganho a força

Do Amor.

O teu sorriso

Me impede a

Seriedade.

Impossível te perder

Na multidão;

Teu brilho magnético

Me indica o teu

Movimento.

Somos só dois numa

Sala vazia.

Só você. Só eu.

Só.

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Rotina

Ela estava exausta. Seu cérebro não a deixava quieta um minuto sequer. Como fazer para colocar em tela de descanso?

Tinha acabado de chegar em casa e já tinha uma ordem: chegar, banho, cama. Pode parecer cruel, mas no auge dos seus 10 anos, ela tinha feito coisa suficente naquele dia, inclusive brincar com os primos, amigos.

Ela estava começando a perceber como um dia podia ser realmente longo. Há cerca de dois anos atrás, quando sua mãe dizia isso, achava que a sua mãe era que estava com problemas, afinal, os dias são sempre longuíssimos! A realidade não perdoa, não é?

Banho tomado, leite quente tomado, estava pronta para a atividade que mais esperava naquele dia: deitar e dormir.

Mas algo estava faltando.

Como?

Chegar, banho, leite, domir. Qual é o problema?

Resolveu deitar antes que isso se tornasse mais uma coisa para o seu cérebro brincar e a impedir de dormir.

Cochilou um pouco, mas acordava toda hora; sua mente era mesmo mais rápida que ela própria.

Cerca de uma hora depois, nesse dorme-não-dorme, a porta do quarto se abriu revelando uma luz nada conveniente para quem brigava consigo mesmo para dormir.

De repente, a sombra de alguém apareceu, aguçando a ( ainda acordada) curiosidade de nossa pequena. Ela resolveu abrir os olhos por mais difícil que fosse.

Era seu pai que tinha ficado para conversar no jantar que os tios da menina tinham oferecido. Agora ele chegou, e foi dar seu beijo de boa-noite infalível.

Entrou no quarto, arrumou a coberta já bagunçada e beijou a bochecha da filha desejando-lhe boa noite com a sensação de dever cumprido.

Cinco minutos depois, nossa acesa garotinha já sonhava com o escorregador mais comprido de sua vida.

ps: texto dedicado para o meu pai, nesse Dia dos Pais um pouco tumultuado mas que não conseguiu atrapalhar as rotinas da casa. Te amo!

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